O que é Bruxaria Tradicional Irlandesa?

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Bruxaria Tradicional é um termo utilizado para definir um conjunto de crenças e práticas baseadas em elementos da cultura de uma determinada região européia. Nossas práticas são baseadas em elementos pagãos e folclóricos irlandeses, tendo como uma das principais fontes de conhecimento não apenas a rica tradição literária irlandesa como também os estudos históricos, antropológicos e arqueológicos sobre esta cultura. Com isso, é possível elaborar uma prática reconstrucionista a fim de viver os antigos costumes daquele povo.

Um dos principais equívocos entre praticantes de Wicca e Bruxaria Moderna é acreditar que a bruxaria havia sido a ‘Antiga Religião’ da Europa, ou que existia um culto ancestral ao ‘Grande Deus Cornífero’, o qual havia sobrevivido em segredo até o século XX, período de ressurgimento do interesse pela prática de bruxaria na Europa. Tais conceitos, totalmente rejeitados pelo meio acadêmico moderno e, conseqüentemente, por praticantes de Bruxaria Tradicional, foram propagados pela antropóloga inglesa Margaret Murray através de seu primeiro livro ‘The Witch-Cult in Western Europe’[i], publicado pela primeira vez em 1921. As teorias de Murray (dentre várias fontes esotérico-ocultistas) foram utilizadas por Gerald Gardner durante o período em que concebeu a Wicca por volta do início da década de 50[ii]. Ao afirmar em seus livros que as teorias de Murray eram verdadeiras, Gardner enfureceu o meio acadêmico de sua época. Apesar disto, suas idéias foram perpetuadas e transmitidas pelas várias tradições de Wicca formadas no século vinte; e ainda hoje, existem vários outros conceitos provenientes da Fé Wicca que causam polêmicas entre wiccanos e bruxos tradicionais.

Em primeiro lugar, como dito acima, a bruxaria nunca foi uma religião. Não existiam templos, sacerdotes, escrituras, liturgias, cosmovisão ou regras em comum que caracterizassem a bruxaria como um culto coeso apto de ser chamado de religião. As práticas identificadas como ‘bruxaria’ já existiam na Europa pagã e foram mescladas às práticas cristãs durante toda a Idade Média.

Além disso, quando nos referimos às práticas de feitiçaria da Europa medieval como “Bruxaria Tradicional” estamos justamente nos referindo as práticas folclóricas de magia coexistentes em uma sociedade Cristã. Essas práticas possuíam, evidentemente, resquícios de antigos elementos pagãos, mas estavam longe de representarem, por exemplo, um reflexo nítido do antigo mundo celta irlandês. O que fazemos hoje, como bruxos tradicionais é justamente resgatar as antigas crenças pagãs, buscando uma prática o mais coerente possível com o passado histórico.

Podemos, atualmente, encarar a Bruxaria Tradicional como religião? Este é um assunto controverso, pois embora a prática da Bruxaria Tradicional possa ter um caráter devocional e ser chamada de ‘minha religião’, ela jamais poderá se enquadrar na categoria de Religião em meio a outras religiões estabelecidas como o Cristianismo, o Budismo, e etc., por não possuir os elementos já mencionados.

Vejamos alguns dos elementos básicos que caracterizam a nossa prática:

Na Bruxaria Tradicional não se traçam círculos para estar ‘entre os mundos’ ou para ‘tornar o espaço sagrado’. A terra para nós já é sagrada, e essa conexão é buscada nos portais encontrados na própria natureza. Logo, jamais nos fecharemos em um círculo se estivermos em meio às árvores, em um bosque ou floresta, ou em uma praia em meio às rochas e o mar. Até mesmo dentro de um apartamento círculos não serão traçados, pois confiamos em nossa conexão com os deuses, ancestrais ou quem quer que estejamos convocando.

Conseqüentemente, a prática wiccana de invocar os quadrantes, derivada de práticas ocultistas da Hermetic Order of the Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada), cujas origens jazem nos trabalhos do matemático e astrólogo Inglês John Dee[iii] (1527-1608), não fará parte de nossa prática.

Outro elemento estranho às práticas tradicionais é a idéia de que “todos os Deuses são um só Deus e Todas as Deusas são uma só Deusa”. Este conceito foi difundido pela primeira vez em 1938 pela ocultista e escritora galesa Dion Fortune[iv] (1890-1946) em seu livro “The Sea Priestess”, e é baseado em ensinamentos da Golden Dawn a qual fez parte de 1919 a 1921. Algumas décadas depois, foi incorporado a Wicca, por Gerald Gardner e posteriormente absorvido por crenças e práticas de Bruxaria Moderna. A Bruxaria Tradicional, por outro lado, reconhece a individualidade dos deuses. Nenhum deus ou deusa é maior do que o outro. Não existe também a idéia de um Deus ou uma Deusa suprema que rege o Todo. Somos estritamente politeístas, assim como os antigos pagãos celtas o eram; além disso, cultuamos única e exclusivamente o panteão irlandês. Entretanto, em nossas Festividades, é de costume honrar primeiramente os deuses e espíritos da Terra Sagrada onde habitamos, antes de convocarmos deidades estrangeiras. Por este motivo, o estudo das tradições indígenas locais adquire, também, notável importância.

Na medida em que vamos pesquisando e nos aprofundando em nossas práticas, começamos a nos desapegar de certos elementos utilizados no início, como alguns instrumentos ritualísticos. Na Bruxaria Tradicional usa-se o mínimo necessário na realização de um feitiço ou durante um dos quatro festivais celtas irlandeses. Logo, nossos altares serão bem mais simples e muitas vezes faremos uso de elementos encontrados na própria natureza. Na cultura celta o mundo era dividido em Terra, Céu e Mar. Estes três reinos são partes da cosmologia da maioria dos povos indo-europeus, e não equivalem aos elementos ‘terra, fogo, ar e água’ do mundo grego helenístico, trazidos até a era moderna pelas tradições mágicas cerimoniais. Por conseguinte, Não existe a representação destes quatro elementos gregos em um altar de bruxaria tradicional irlandesa. Nem tampouco representamos os ‘quatro’ tesouros da Irlanda como sendo substitutos a estes elementos. Tal associação foi feita de forma empírica no final de 1800 pelo influente poeta irlandês W.B. Yeats enquanto membro da Golden Dawn.[v] Na realidade utilizamos apenas elementos relacionados com o simbolismo da festividade a ser comemorada ou que estejam correlacionados as deidades envolvidas.

Depois de escolher todos os itens necessários para o ritual ou celebração a ser realizada, colocamo-las em um altar. Este altar está geralmente voltado para a Irlanda, Terra Natal de nossos deuses; mas pode estar também voltado para direções específicas utilizando a simbologia encontrada na cultura gaélica. O Norte (cath) está ligado basicamente ao orgulho, à batalha e ao conflito; o Sul (séis) à música e aos espíritos; o Leste à prosperidade e à fertilidade; e finalmente o Oeste (fios) ao conhecimento e à sabedoria. Estas serão as direções utilizadas caso estejamos trabalhando, por exemplo, feitiços os quais possuam esta temática.

Trabalhamos todo o tipo de feitiço dependendo do grau de necessidade que determinada situação exija. Na Bruxaria Tradicional, a execução de qualquer ato mágico é fortemente baseada na ética. É ela que determina quais medidas deverão ser tomadas nas diferentes situações em nosso dia-a-dia. Não somos regidos por uma ‘Lei Tríplice’[vi] que nos beneficiará três vezes por determinada ação ou que nos punirá três vezes por qualquer ato mágico mal-intencionado; até mesmo porque, como dito acima, nosso sentimento de ética impede que pratiquemos o mal gratuito. Ela nos dita ‘faça a sua vontade, mas saiba o que faz’. Gozamos do livre arbítrio de tomarmos decisões baseadas em nossa intuição e bom-senso. Conseqüentemente, tomamos responsabilidades por nossas ações; algo que aprendemos desde o início.

O treinamento de um bruxo tradicional leva muitos e muitos anos. A vida poderá ser um dos nossos principais instrutores. Além disso, nossos inimigos também têm muito a nos ensinar. São eles que põem em prova nossa ética, autocontrole, e equilíbrio interno. Os deuses, em meio a estes elementos, também terão um papel importante.

Quando começa o treinamento de um bruxo tradicional? Aqueles que nascem em famílias praticantes de Bruxaria Tradicional Irlandesa passam por um longo período probatório onde são observadas suas aptidões para a prática da bruxaria. Em geral, são estimulados dons como a intuição, a percepção e talvez a clarividência ou clariaudiência. Ao término da adolescência esta mesma pessoa decide se deseja ou não trilhar o Caminho e então é formalmente apresentada a outros membros praticantes da família; quando então, será dado início a um longo período de treinamento. É claro que nem todos em uma família se sentirão aptos ou inclinados a esta prática. Em algumas gerações poderemos ter um ou dois praticantes, ou até mesmo nenhum! Obviamente a idéia moderna de que o indivíduo se torna um bruxo ao passar por uma iniciação a qual ocorre após um ano e um dia de busca ou autodedicação não se aplica a este caminho. Não existe o conceito ocultista de iniciação na Bruxaria Tradicional, nem tampouco a idéia de graus. Logo, jamais poderão existir Sacerdotes ou Sacerdotisas neste caminho e muito menos Sumos Sacerdotes ou Suma Sacerdotisas. Bruxos Tradicionais poderão organizar-se em Famílias ou Grupos, mas nunca em Covens ou organizações de estrutura similar.

Por último, é importante enfatizar o fato de que a Bruxaria Tradicional Irlandesa é um caminho que requer constante pesquisa e estudo. Não é um caminho fácil, especialmente para aqueles que não nasceram em famílias de bruxos tradicionais irlandeses, como é o caso de nós, brasileiros. Contudo, nossas práticas são regidas por um espírito de simplicidade inicialmente tão difícil de se atingir, mas ao mesmo tempo tão poderoso e tão completo que após este período inicial, nossa relação com os ancestrais e com os deuses muda para sempre.

[i] No Brasil, “O culto das Bruxas na Europa Ocidental” Ed. Madras.

[ii] Vide Hutton, Ronald “Paganism and Polemic: The Debate over the Origins of Modern Pagan Witchcraft”
© 2000 Folklore Society in association with the Gale Group and Look Smart;
leia também: Hutton, R. “The Roots of Modern Paganism.” In Paganism Today, ed. Graham Harvey and Charlotte Hardman. 3-15. London: Thorsons, 1996; Hutton, R. “The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft”. Oxford: Oxford University Press, 1999.

[iii] Leia mais sobre John Dee em:  http://www.occultopedia.com/d/dee.htm

[iv] Mais informações sobre Dion Fortune em: http://www.wisdomofsolomon.com/DF-bio.html ; http://www.angelfire.com/az/garethknight/aboutdf.html ;

Leia também o livro “A Sacerdotisa do Mar” Ed. Pensamento 1988; Em inglês: “The Sea Priestess” Ed. Wellingborough 1938: re-edição Aquarian Press, 1989.

[v] WB Yeats desenvolveu um profundo interesse pela cultura gaélica irlandesa, e participou intensamente de um movimento chamado de ‘A Revitalização Literária Irlandesa’, durante um período conhecido como ‘A Revitalização Gaélica’ – período este que buscava ressuscitar além da língua irlandesa, a antiga literatura, canção e dança gaélica. Yeats foi o membro fundador da ‘Sociedade Literária Nacional Irlandesa’. E formou o ‘Teatro Literário Irlandês’ com sua amiga Lady Augusta Gregory em 1898. Ambas organizações serviram como veículos para divulgar vários aspectos da cultura irlandesa, como a mitologia e o folclore, não esquecendo, é claro, o nacionalismo irlandês. Em 1903 o ‘Teatro Literário Irlandês’ tornou-se a ‘Sociedade Teatral Nacional Irlandesa’ e finalmente em 1904 mudou-se para o famoso ‘Abbey Theatre’ em Dublin (o qual continuou sendo dirigido por Yeats e Lady Gregory).

[vi] Lei Tríplice: trecho do poema Wiccan Rede – O Conselho dos Sábios

“Green Egg Magazine” Vol. III. No. 69 (Ostara 1975) (a edição mais famosa de uma das revistas mais marcantes do mundo pagão contemporâneo)

Fonte: Gustavo Elias © Bruxaria Tradicional no Brasil
2004

Editado por AShTarot Cognatus

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Baphomet & Opfer

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A palavra ‘opfer’ refere-se geralmente ao sacrifício que ocorre – simbólico ou de outra forma – durante certos rituais. Existem geralmente dois tipos de opfer: (1) associado a rituais para abrir uma passagem (ou ‘Portal Estelar’), entre Aeons – quando um/uns opfer(s) é/são considerado(s) necessário(s) em termos da ‘energia’ requirida; (2) aqueles associados a crenças tradicionais respeitando ao ‘funcionamento do cosmos’ (‘Opfers’ associados com rituais de morte formam um terceiro tipo.).

O segundo tipo, de acordo com a tradição, era escolhido uma vez em cada 17 anos e este sacrifício era visto como necessário para manter ‘o equilíbrio cósmico’ – nos tempos modernos, manter uma passagem aberta (e assim preservar a civilização mais elevada associada etc). O escolhido era tornado um Sacerdote honorário (este tipo de opfer era sempre masculino) e havia uma união entre ele e uma ou mais mulheres, como sacerdotisas. Esta união era um tipo simples de ‘hierosgamos’, e ao descendente da união era dada grande honra. Na própria cerimônia, a cabeça do opfer era cortada e exibida – habitualmente por uma noite e um dia (embora este período possa ter sido mais longo num passado muito mais remoto). O Rito era realizado num espaço aberto num sítio ‘sagrado’ – normal ente um círculo de pedras ou uma colina.

O escolhido era capaz, por causa do sacrifício, de usufruir de uma existência acausal – tornando-se assim um Imortal. Dessa forma o ‘sacrifício voluntário’ era possível, embora seja fácil imaginar que em tempos mais tardios, o opfer não tinha tanta vontade.

Tradicionalmente, este tipo nos remete até Albion, e enquanto originalmente o ritual era provavelmente um acontecimento comunitário, tornou-se mais secreto. O que sobrevive até hoje (a Cerimonia de Lembrança com fim ‘opfer’) provavelmente reflete mais a essência desta tradição antiga do que o detalhe (as palavras, cânticos etc). Esta essência pode ser apreendida no papel da Senhora da Terra – representativa de Baphomet, a Deusa Negra. Era para Baphomet que o sacrifício era feito – daí um opfer masculino. Na realidade, toda a cerimônia (de Lembrança) pode ser vista como uma celebração da deusa negra – a Senhora/deusa da Terra no seu aspecto mais sombrio/violento/sinistro. A cabeça decepada estava associada à veneração de Baphomet – o culto derivado de Albion – daí a representação tradicional de Baphomet.

A identificação de Baphomet como a Esposa de Lúcifer/Satanás data provavelmente de meados do século X ou XI, assim como o uso do nome ‘Satan’/Satanás como o representante material dos Deuses Negros.

É importante lembrar que em tempos mais antigos (por exemplo em Albion durante o aeon Hiperbóreo) não havia uma distinção clara e/ou moral entre o ‘luminoso’ e o ‘sinistro’: os dois eram vistos como diferentes aspectos da mesma coisa. Assim, aquilo que nós conhecemos como a Senhora da Terra (a ‘deusa’) era tanto o que nós chamamos Baphomet (o lado sombrio) como Gaia (a Mãe Terra). Da mesma forma para o aspecto masculino – Satanás e Lúcifer – ou Dioniso/Kabeiroi e Apollo. Agora entendemos todos estes símbolos como projeções inconscientes/conscientes da ‘realidade’ (onde ‘realidade’ = região da convergência causal/acausal) – como ‘portais’/passagens para o próprio acausal, com as 7 esferas da Árvore de Wyrd sendo um ‘mapa’ destes portais, inteligível pela consciência do não-Adepto. Desta forma, a esfera de Mercúrio representa Lúcifer/Satanás – Mercúrio, Marte e o Sol sendo esferas “masculinas”, e a Lua, Vénus e Júpiter as “femininas” (Saturno para além desses opostos – o próprio Caos).

O culto de Baphomet era a veneração do aspecto negro das energias “femininas” – onde neste contexto, veneração significa um trabalho para compreender / integração consciente. Pistas da veneração do aspecto ‘luminoso’ sobrevivem na tradição Septenária no nome “Aktlal Maka” e na forma natural do rito dos Nove Ângulos. O aspecto mais tenebroso sobrevive, em essência, na Cerimônia de Lembrança e nas tradições associadas à Senhora da Terra e a Baphomet. Quanto ao nome original da deusa em ambos os aspectos, existe uma tradição que dá ‘Darkat’ (antiga forma de Lilith) como o nome usado antes de Baphomet se ter tornado de uso comum. No entanto, ‘Azanigin’ também já foi sugerido – tal como foi ‘Aktlal Maka’ para o aspecto ‘luminoso’/Gaia, embora ambos sejam apenas sugestões do século XX, não baseadas em qualquer tradição oral. Diz-se que alguns aspectos na deusa (negra) sobreviveram nos tempos Gregos sob a forma dos ‘cultos de mistérios’ (vide Kabeiroi – e também Eleusis para o aspecto ‘luminoso’), sendo estes uma ‘sobrevivência indireta’, a tradição Septenária sendo direta, de Albion.

O uso do nome ‘Baphomet’ deriva provavelmente dos séculos X ou XI embora a representação pictórica tradicional de Baphomet seja indubitavelmente mais antiga. Se existia uma tradição oral ligada à origem do nome Baphomet, foi perdida.

Assim, não existem indicações quanto aos nomes ‘originais’ dos elementos ‘luminosos’ e ‘sinistros’ do lado ‘masculino’ – conhecidos por nós como ‘Lúcifer’ e ‘Satanás’. Estes últimos nomes também datam provavelmente de meados do século X ou XI – embora ‘Karu Samsu’ (ou qualquer coisa muito semelhante) tenha sido sugerido para o aspecto ‘Lúcifer’ e ‘Sapanur’ para o aspecto ‘sinistro’.

Os ritos associados com o primeiro tipo de opfer – tal como o ‘Chamado Sinistro’ – não podem ser datados com certeza ou vistos como derivados de uma tradição mais antiga. Em toda a probabilidade, derivam do século XII ou XIII, embora seja muito possível que versões/formas antigas existissem. Algumas pessoas têm considerado o Chamado Sinistro como uma versão posterior da Cerimonia de Lembrança. Mais uma vez, se existia uma tradição oral, foi perdida – tudo o que persiste são os próprios rituais.

A própria ‘Missa Negra’ (e na realidade a maior parte dos rituais n’O Livro Negro de Satanás) originaram-se provavelmente por volta da mesma altura do Chamado Sinistro. A Missa original era dita em latim, embora a meio do século XX uma versão traduzida tenha encontrado o seu caminho para o Livro Negro – por necessidade, embora alguns cânticos em Latim tenham permanecido.

NOTAS: O significado do ciclo de 17 anos não é claro. Nas últimas décadas algumas teorias foram avançadas, mas não são convincentes.

Aktlal Maka é um cântico por vezes usado no Rito natural dos Nove Ângulos pela Sacerdotisa se a clareira tiver uma fonte de água. Significa ‘as águas fluindo da Terra’ e é cantado em homenagem a Gaia uma vez que as fontes naturais são vistas como as suas crianças.

Os mistérios dos ‘Kabeiroi’ (por vezes pronunciado Cabiri) são uma das tradições esotéricas associadas ao Aeon Helênico. Na sua forma original, ‘os mistérios’ respeitavam a determinadas deidades normalmente representadas na forma de grifos e ligadas ao mar assim como Deméter – a ‘Mãe Terra’ ou Gaia. Segundo a tradição esotérica, os mistérios respeitavam aos Deuses Negros – em variadas formas mutantes – e contavam como Deméter tinha dado aos primeiros Iniciados desta tradição um cristal (mais tarde venerado num santuário perto de Tebas, onde existia um bosque sagrado para Deméter) assim como também mostravam como um indivíduo, através de vários Ritos que envolviam Gaia, mulheres, casamento sagrado e por aí fora, podia ser transformado (transportado) para um nível diferente de consciência. Esta transformação, tal como noutros Cultos Gregos de Mistérios, era obtida principalmente através do envolvimento pessoal na ação ritual/cerimonial habitualmente de um tipo mitológico.

Mais tarde, esta tradição dividiu-se – Eleusis representando o elemento ‘Apolíneo’, e os Kabeiroi os aspectos ‘Dionisíacos’ ou sombrios, pois é dito que todos os iniciados dos Cabiri tinham de ter cometido um crime maior que os crimes comuns.

Os mistérios dos Kabeiroi eram habitualmente celebrados em santuários em montanhas (algumas combinações de rochas e água subterrânea sendo vistas como sagradas – isto é, capazes pelo seu poder mágico de transformar a consciência dos indivíduos (confrontar alguns sítios sagrados do povo Yezidi que possuíam uma versão mais confusa da tradição dos Deuses Negros) e atingir estes santuários era considerado parte do processo da Iniciação.

Os Gregos chamavam aos Kabeiroi ‘os grandes deuses’.
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artigo original em:
http://home.tiscali.se/dragonet/ona/mars/baphomet_and_opfer.html

Traduzido por: Alektryon Christophoros
Editado por: AShTarot Cognatus

– Ordem dos Nove Ângulos –

O que é Anarquia Verde?

 

The Green Anarchy Collective

Este texto não é para ser “os princípios que definem” um “movimento” anarquista verde, nem mesmo um manifesto anti-civilização; é um olhar sobre idéias e conceitos básicos de membros de coletivos que dividem consigo e outros que se identificam com os anarquistas verdes. Nós entendemos e celebramos a necessidade de manter nossas visões e estratégias abertas, e discussões sempre são bem vindas. Nós sentimos que cada aspecto do que pensamos e do que somos precisam ser desafiados e permanecer flexíveis se nós quisermos crescer. Não estamos interessados em desenvolver uma nova ideologia, perpetuar uma visão de mundo única. Nós também entendemos que nem todos anarquistas verdes são especificamente contra a civilização (mas custamos a entender como alguém pode ser contra todo tipo de dominação sem pensar em suas raízes: a própria civilização). Até aí, entretanto, muito dos que usam o termo “anarquista verde” criticam a civilização e tudo que vem junto com ela (domesticação, patriarcado, divisão de trabalho, tecnologia, produção, representação, alienação, controle, destruição da vida, etc.). Enquanto alguns gostariam de falar em termos de democracia direta e jardinagem urbana nós achamos que é impossível e indesejável fazer a civilização mais “verde” e/ou fazê-la mais “justa”. Nós sentimos que é importante mover radicalmente em direção a um mundo descentralizado, para desafiar a lógica e a formação de opinião da cultura-da-morte, acabar com toda mediação em nossas vidas, e destruir todas as instituições e manifestações físicas deste pesadelo. Nós queremos nos tornar não-civilizados. Em termos gerais, essa é a trajetória da anarquia verde no pensamento e na prática.

Anarquia vs. anarquismo

Um fator que nós achamos ser importante para começar este texto é a distinção entre “anarquia” e “anarquismo”. Alguns poderão entender isso como uma pura questão trivial ou semântica, mas para muitos pós-esquerdistas e anarquistas anti-civilização, esta diferenciação é importante. Enquanto o anarquismo serve como um importante ponto de referência histórica do qual se extrai inspirações e lições, ele tem se tornado muito sistemático, fixo e ideológico – tudo o que a anarquia não é. Admitidamente, a anarquia tem muito pouco a ver com a orientação
social/política/filosófica do anarquismo e mais a ver com aqueles que se identificam como anarquistas. Sem dúvida, muitos de nossa “linhagem” anarquista ficariam desapontados por esta tendência em solidificar algo que deveria estar sempre fluindo. Os primeiros que se identificaram como anarquistas (Proudhon, Bakunin, Berkman, Goldman, Malatesta e outros) respondiam a seus contextos específicos com suas próprias motivações e desejos específicos. Muito frequentemente, os anarquistas contemporâneos vêem estas pessoas como representantes e fundadores da anarquia, e criam uma atitude do tipo “o que Bakunin faria” (ou melhor, “pensaria”) a respeito da anarquia, o que é trágico e potencialmente perigoso. Hoje, os que se identificam como anarquistas “clássicos” se recusam a aceitar qualquer realização em um território desconhecido dentro do anarquismo (ex.: primitivismo, pós-esquerdismo, etc.) ou tendências que têm estado frequentemente em desacordo com a aproximação com o movimento de massa dos trabalhadores (ex.: Individualismo, Niilismo, etc.). Estes anarquistas rígidos, dogmáticos e extremamente não-criativos foram muito longe em declarar que o anarquismo é uma metodologia social/econômica de organizar as classes trabalhadoras. Isso é obviamente um extremo absurdo, mas tais tendências podem ser vistas nas idéias e projetos de muitos anarco-esquerdistas contemporâneos (anarco-sindicalistas, anarco- comunistas, plataformistas, federacionistas, etc.). O “Anarquismo” como se encontra hoje, é uma ideologia muito esquerdista, a qual nós devemos ir além. Em contraste, a “anarquia” é uma experiência sem forma, fluída e orgânica que abraça visões multifacetadas de libertação tanto pessoal quanto coletiva e sempre aberta. Como anarquistas nós não nos interessamos em formar uma nova estrutura ou conjunto de regras para viver e seguir, por mais “ética” ou “discreta” que pareça ser. Os anarquistas não podem oferecer um outro mundo para as pessoas, mas nós podemos levantar questões e idéias, tentar destruir toda dominação que impede nossas vidas e nossos sonhos e vivermos diretamente conectados com nossos desejos.

O que é primitivismo?

Enquanto nem todos os anarquistas verdes se identificam especificamente como “Primitivistas”, muitos reconhecem a importância que a crítica primitivista tem tido nas perspectivas anti-civilização. O primitivismo é simplesmente uma análise antropológica, intelectual e experimental das origens da civilização e das circunstâncias que levaram ao pesadelo que nós atualmente vivemos. O primitivismo reconhece que na maior parte da história humana, nós vivíamos em comunidades cara-a-cara, em harmonia uns com os outros e com o nosso redor, sem hierarquias e instituições para mediar e controlar nossas vidas. Os primitivistas querem aprender através das dinâmicas que ocorreram no passado e em sociedades contemporâneas coletoras-
caçadoras/primitivas (aquelas que existiram e ainda existem fora da civilização). Enquanto alguns primitivistas querem um retorno completo e imediato às sociedades coletoras-caçadoras, muitos primitivistas sabem que um conhecimento do que foi bem-sucedido no passado não determina exatamente o que funcionará no futuro. O termo “Futuro Primitivo” criado pelo autor anarco- primitivista John Zerzan faz alusão de que uma síntese de técnicas e idéias primitivas pode ser unida com conceitos e motivações anarquistas contemporâneos para criar situações descentralizadas saudáveis, sustentáveis e igualitárias. Aplicadas não ideologicamente, o anarco-primitivismo pode ser uma importante ferramenta no projeto de des-civilização.

O que é civilização?

Os anarquistas verdes tendem a ver a civilização como os aparatos lógicos, institucionais e físicos da domesticação, controle, e dominação. Enquanto diferentes indivíduos e grupos priorizam aspectos distintos da civilização (ex. os primitivistas tipicamente se focam na questão das origens, as feministas primeiramente se focam nas raízes e manifestações do patriarcado, e os anarquistas insurrecionalistas se focam principalmente na destruição das atuais instituições de controle), muitos anarquistas verdes concordam que ela é a base do problema ou a raiz das opressões, e que precisa ser desmantelada. A ascensão da civilização pode muito bem ser descrita como a mudança dos últimos dez mil anos de uma existência profundamente conectada com a teia da vida, para outra separada e em controle do resto da vida. Antes da civilização existia um amplo tempo livre, uma considerável autonomia e igualdade sexual, uma aproximação não-destrutiva do mundo natural, a ausência de violência, nenhuma instituição mediadora ou formal, e uma saúde vigorosa. A civilização iniciou a guerra, a subjugação da mulher, o crescimento populacional, o trabalho forçado, os conceitos de propriedade, hierarquias, e praticamente todas as doenças conhecidas, isso para citar apenas algumas das suas conseqüências devastadoras. A civilização conta e começa com uma renúncia forçada do instinto da liberdade. Ela não pode ser reformada, portanto é nossa inimiga.

Biocentrismo vs. antropocentrismo

Um modo de analisar a extrema discordância entre as visões de mundo das sociedades primitivas e da civilização, é por meio de visões biocêntricas vs. antropocêntricas. O biocentrismo é uma perspectiva que nos coloca e nos conecta com a terra e a complexa teia da vida, enquanto o antropocentrismo, a visão dominante do mundo, da cultura ocidental, coloca o foco na sociedade humana excluindo outras formas de vida. Uma visão biocêntrica não rejeita a sociedade humana,
mas a retira do status de superioridade e a coloca em equilíbrio com as outras formas de vida. Ela coloca uma prioridade em uma visão biorregional, profundamente conectada com as plantas, os animais, insetos, clima, condições geográficas, e o espírito do lugar que habitamos. Não há divisão entre nós e o meio ambiente, então não pode haver objetificação ou alienação da vida. Onde a separação e a objetificação são as bases da nossa habilidade de dominar e controlar, a interconexão é um pré-requisito para uma profunda educação, atenção e compreensão. A anarquia-verde se esforça para ir além das idéias e visões antropocêntricas para um profundo respeito por toda vida e as dinâmicas dos ecossistemas que nos sustentam.

Uma crítica à cultura simbólica

Um outro aspecto de que como nós vemos e relacionamos com o mundo que pode ser problemático, no sentido de que somos separados de uma interação direta com o mundo, é a nossa mudança em direção à uma quase que exclusiva cultura simbólica. Muitas vezes a resposta a esse questionamento é “Então vocês só querem reclamar?” o que talvez seja a intenção de alguns, mas essa crítica é um olhar para os problemas inerentes com uma forma de comunicação e compreensão que confia primordialmente no pensamento simbólico ao custo (e exclusão) de outros meios sensuais e não mediados. A ênfase no simbólico é um movimento da experiência direta para a experiência mediada, na forma de linguagem, arte, número, tempo etc. A cultura simbólica filtra toda a nossa percepção através de símbolos formais e informais. Está além de simplesmente dar nome as coisas, mas ter uma relação inteira com o mundo que é visto através das lentes da representação. É questionável se os seres humanos são como “peças” do pensamento simbólico, ou se esse pensamento se desenvolveu como uma mudança ou adaptação cultural, mas o modo simbólico de expressão e compreensão é certamente limitado, e sua dependência leva à objetivação, alienação e a uma cegueira da percepção. Muitos anarquistas verdes promovem e praticam a aproximação e a reanimação de métodos dormentes e inutilizados de interação e percepção, como o toque, olfato, e telepatia, bem como desenvolver métodos únicos e pessoais de compreensão e expressão.

A domesticação da vida

A domesticação é o processo que a civilização usa para doutrinar e controlar a vida de acordo com a sua lógica. Esses mecanismos aperfeiçoados de subordinação incluem: domesticação, criação, manipulação genética, intimidação, extorsão, aprisionamento, adestramento, coerção, chantagem, escravidão, governo, terrorismo, assassinato – a lista continua, incluindo quase todas as
interações sociais civilizadas. Suas ações e efeitos podem ser examinados e sentidos por toda sociedade, reforçada pelas várias instituições, rituais e costumes. É também o processo pelo qual populações humanas antes nômades se mudaram para uma existência sedentária e assentada através da agricultura e criação de animais. Este tipo de domesticação requer uma relação totalitária com a terra, com as plantas e os animais sendo domesticados. Ao passo que em um estado selvagem toda vida divide e compete por recursos, a domesticação destrói esse balanço. A paisagem domesticada (ex.: terras pastoris/campos de agricultura, e em um nível menor, horticultura e jardinagem) requer o fim da livre partilha dos recursos que antes existiam; onde antes era “tudo é de todos”, agora é “meu”. No romance Ismael, o autor Daniel Quinn fala sobre essa transformação dos “largadores” (aqueles que aceitavam o que a Terra oferecia) aos “pegadores” (aqueles que exigiam da Terra o que eles queriam). Essa noção de posse é o que levou a fundação da hierarquia social enquanto a propriedade e o poder emergiam. A domesticação não somente muda a ecologia de uma ordem livre para uma ordem totalitária, como escraviza as espécies que são domesticadas. De modo geral, quanto mais um ambiente é controlado, menos sustentável ele se torna. A própria domesticação humana envolve vários tipos de posses e controles, em comparação com o modo de vida nômade e coletor. Não é de se esperar que muitas alterações feitas de uma vida nômade-coletora para vida domesticada não foram feitas de forma autônoma, mas foram feitas através da lâmina da espada e da mira das armas. Considerando que somente há 2.000 anos atrás a maior parte da população do mundo era composta de coletores-caçadores, agora não chega 0.01%. O caminho da domesticação é uma força colonizadora que tem trazido uma grande quantidade de patologias para as populações dominadas e para os criadores dessa prática. Vários exemplos incluem um declínio na saúde nutricional devido à excessiva dependência de dietas não diversificadas, quase 40 a 60 doenças integradas às populações humanas por animal domesticado (influenza, resfriado comum, tuberculose, etc.), a emergência do excedente que pode ser usado para alimentar uma população fora de equilíbrio, o que invariavelmente envolve a propriedade e o fim da partilha incondicional.

As origens e dinâmicas do patriarcado

Em relação ao início da mudança para a civilização, uns dos primeiros produtos da domesticação é o patriarcado: a formalização da dominação masculina e o desenvolvimento das instituições que a reforçam. Criando falsas distinções e divisões sexuais entre homens e mulheres, a civilização novamente cria um “outro” que pode ser “objetificado”, controlado, dominado, utilizado e transformado em mercadoria. Isso ocorre paralelamente à domesticação de plantas na agricultura e
animais para pastoreio, em uma dinâmica geral, e também específica, como é o caso do controle da reprodução. Como em outras regiões de estratificação social, papéis são definidos às mulheres para que assim se estabeleça uma ordem rígida e previsível que beneficie a hierarquia. As mulheres passam a ser vistas como propriedade, assim como os campos de trigo ou as ovelhas no pasto. A posse e o controle absoluto tanto da terra quanto dos animais, escravos, crianças ou mulheres, é parte da dinâmica estabelecida da civilização. O patriarcado exige a subjugação feminina e a usurpação da natureza, nos impulsionando a aniquilação total. O patriarcado define o poder, o controle e o domínio sobre o selvagem, a liberdade e a vida. O condicionamento patriarcal domina todas as nossas interações; com nós mesmos, nossa sexualidade, nossa relação uns com os outros e a nossa relação com a natureza. Isso limita severamente o espectro de possíveis experiências. A relação interconectada entre a lógica da civilização e o patriarcado é inegável; por milhares de anos eles transformaram cada nível da experiência humana, do nível institucional ao pessoal, enquanto devoravam a vida. Para ser contra a civilização devemos ser contra o patriarcado; e para se questionar o patriarcado se deve questionar a civilização.

Divisão do trabalho e especialização

A desconexão da habilidade de cuidar de nós mesmos e prover nossas próprias necessidades é uma técnica de separação e desempoderamento perpetuada pela civilização. Nós somos mais úteis ao sistema, e menos úteis a nós mesmos, se estivermos alienados dos nossos desejos e das outras pessoas pela divisão do trabalho e especialização. Não estamos mais aptos a sair pelo mundo e fornecer a nós mesmos e a nossos queridos o alimento e as provisões necessárias para a sobrevivência. Ao invés disso, nós somos empurrados a um sistema de produção e consumo de mercadorias ao qual estamos sempre em débito. Injustiças da influência direta que se dá através do poder efetivo das várias categorias de “experts”. O conceito de um especialista inerentemente cria uma dinâmica poderosa que enfraquece as relações igualitárias. Enquanto a Esquerda às vezes possa reconhecer esses conceitos politicamente, eles são vistos como dinâmicas necessárias, para manter ou regular, enquanto os anarquistas verdes tendem a ver a divisão de trabalho e a especialização como problemas fundamentais e irreconciliáveis, decisivos para as relações sociais na civilização.

A rejeição da Ciência

A maioria dos anarquistas anti-civilização rejeita a ciência como um método para compreender o mundo. A ciência não é neutra. Ela está carregada de motivos e conceitos que são
criados, e reforçam a catástrofe da dissociação, desempoderamento e letalidade corrosiva que nós chamamos “civilização”. A ciência assume o afastamento, que é construído através da própria palavra “observação”. “Observar” algo é percebê-lo enquanto uma pessoa é distanciada emocionalmente e fisicamente, para ter um único canal de “informação”, vindo do que é observado para essa pessoa, que é definida como não sendo parte do que foi observado. Essa visão mecânica e baseada na morte é uma religião, a religião dominante do nosso tempo. O método científico lida somente com o quantitativo. Ele não admite valores ou emoções, ou, por exemplo, o modo como o ar cheira quando começa a chover – quando ela lida com essas coisas, ela lida transformando-as em números, tornando a singularidade do cheiro da chuva em uma preocupação abstrata com a fórmula química para o ozônio, tornando o modo como ele faz você sentir, em uma idéia intelectual de que as emoções são somente uma ilusão vinda do aquecimento dos neurônios. O próprio número em si não é real, mas um estilo de pensamento que foi escolhido. Escolhemos um hábito mental que foca nossa atenção em um mundo fora da realidade, onde nada possui qualidade ou vida própria. Escolhemos transformar a vida em morte. Os cientistas mais cautelosos podem admitir que o que eles estudam não passa de uma simulação limitada do mundo real complexo, mas poucos deles percebem que esse foco limitado é auto-alimentador, que ele construiu sistemas tecnológicos, econômicos e políticos que trabalham juntos, que sugam nossa realidade para eles mesmos. Tão limitado quanto o mundo dos números, o método científico nem ao menos permite todos os números – somente os números que são reproduzíveis, previsíveis, e a mesma coisa para todos os espectadores. Claro que a própria realidade não é reproduzível ou previsível ou a mesma para todos os espectadores. Mas tampouco são mundos de fantasia derivados da realidade. A ciência não pára de nos colocar em um mundo de sonhos – ela vai além, e faz desse mundo de sonhos o nosso pesadelo, onde seus conteúdos são selecionados para serem previsíveis, controláveis e uniformes. Toda a surpresa, tudo relativo aos nossos sentidos são reprimidos. Por causa da ciência, os estados de consciência que não podem ser seguramente determinados são classificados como insanos, ou, na melhor das hipóteses, “incomuns”, e excluídos. Experiências anormais, idéias anormais, e pessoas anormais são rejeitadas ou destruídas como se fossem componentes defeituosos de uma máquina. A ciência é somente uma manifestação, que está presa a uma ânsia por um controle que nós temos desde que começamos a cultivar terras e cercar animais ao invés de percorrermos o mais imprevisível (mas mais abundante) mundo da realidade, ou “natureza”. E a partir daí, essa ânsia conduziu cada decisão, do que se diz “progresso”, até e incluindo a reestruturação genética da vida.

O problema da tecnologia

Todos os anarquistas verdes de alguma forma questionam a tecnologia. Enquanto há aqueles que ainda propõem noções de tecnologias “verdes” ou “apropriadas” e buscam análises racionais para se apegarem por formas de domesticação, muitos rejeitam completamente a tecnologia. A tecnologia é muito mais do que fios, silicone, plásticos e aço. Ela é um sistema complexo que envolve divisão de trabalho, extração de recursos, e a exploração dos outros para benefício daqueles que executaram seu processo. A interface e o resultado da tecnologia sempre é uma realidade alienada, mediada e distorcida. Apesar do que dizem os apologistas pós-modernos e outros tecnófilos, a tecnologia não é neutra. Os valores e objetivos daqueles que produzem e controlam a tecnologia estão sempre embutidos nela. A tecnologia se difere dos instrumentos simples em vários aspectos. Uma ferramenta simples e o uso temporário de um elemento em nosso meio para uma tarefa específica. Ferramentas simples não envolvem sistemas que alienam o usuário do ato. Esta separação é absoluta na tecnologia, criando uma experiência doentia e mediada, o que resulta em várias formas de autoridades. A dominação aumenta toda vez que uma nova tecnologia é criada, necessitando a construção de mais tecnologia para o suporte, abastecimento e reparo de tal tecnologia. Isto tem levado rapidamente ao estabelecimento de um sistema tecnológico complexo que parece ter uma existência independente dos humanos. Dejetos-produtos da sociedade tecnológica estão poluindo tanto nosso ambiente físico quanto nosso ambiente psicológico. Vidas são roubadas a serviço da máquina e do efluente tóxico do combustível tecnológico – ambos estão nos chocando. A tecnologia hoje tem multiplicado a si mesma, com algo semelhante a uma sinistra “sensibilidade”. A sociedade tecnológica é uma infecção planetária, impulsionada adiante pelo seu próprio ímpeto, rapidamente ordenando um novo tipo de ambiente desenvolvido para a eficiência mecânica e expansionismo tecnológico. O sistema tecnológico metodicamente destrói, elimina e subordina o mundo natural, construindo um mundo que sirva somente para as máquinas. O ideal que o sistema tecnológico aponta é a mecanização de tudo aquilo que encontra.

Produção e industrialismo

Um componente-chave da estrutura tecno-capitalista moderna é o Industrialismo, o sistema mecanizado construído no poder centralizado e na exploração de pessoas e da natureza. O industrialismo não pode existir sem genocídio, ecocídio e colonialismo. Para mantê-lo, a coerção, desapropriação de terras, trabalho forçado, destruição cultural, assimilação, devastação ecológica e o mercado são aceitos como necessários ou mesmo benéficos. A padronização da vida pelo industrialismo transforma a vida em objeto e um bem de consumo, encarando toda vida como potenciais recursos.

Uma crítica do industrialismo é uma extensão natural da crítica anarquista ao estado pois o industrialismo é inerentemente autoritário. Para manter uma sociedade industrial, deve-se conquistar e colonizar terras para (geralmente) conseguir recursos não-renováveis para abastecer e lubrificar as máquinas. Este colonialismo é racionalizado pelo racismo, sexismo, e o chauvinismo cultural. No processo para adquirir esses recursos, as pessoas devem ser forçadas a saírem de suas terras. E para fazer as pessoas trabalharem nas fábricas que produzem as máquinas, elas devem ser escravizadas, devem tornar-se dependentes e sujeitas ao sistema industrial tóxico e degradante. O industrialismo não pode existir sem uma massiva centralização e especialização. A dominação de classes é uma ferramenta do sistema industrial que nega às pessoas acesso a recursos e conhecimento, transformando-as em impotentes e fáceis de explorar. Além disso, o industrialismo requer que recursos sejam distribuídos ao longo de todo globo para perpetuar sua existência, e este globalismo enfraquece e destrói a autonomia local e sua auto-suficiência. É uma visão do mundo mecânica, que está atrás do industrialismo. É essa mesma visão de mundo que justifica a escravidão, extermínio e subjugação da mulher. Deveria ser óbvio para todos que o industrialismo não é apenas opressivo com os humanos, mas que é também ecologicamente destrutivo.

Além do esquerdismo

Infelizmente, a maior parte dos anarquistas continuam sendo vistos e vendo a si mesmos como parte da esquerda. Esta tendência está mudando, visto que os anarquistas pós-esquerda e anti- civilização fazem uma distinção clara entre suas perspectivas e a falida orientação socialista e liberal. A esquerda não tem apenas provido a si mesma um monumental fracasso em seus objetivos, mas é obvio pela sua história, pelas suas práticas atuais, e sua estrutura ideológica, que (enquanto apresenta a si mesma como altruísta e promotora de “liberdade”) é atualmente a antítese da libertação. A esquerda, fundamentalmente, nunca questionou a tecnologia, a produção, organização, representação, alienação, autoritarismo, moralismo, ou o progresso, e não tem quase nada a dizer sobre ecologia, autonomia, ou individualidade em alguma agenda “progressista”, frequentemente usando aproximações coercivas e manipuladoras para criar uma falsa “unidade” ou a criação de partidos políticos. Enquanto os métodos e os exageros de implementação podem ser diferentes, o esforço total é o mesmo, a instituição da visão do mundo coletivizada e monolítica baseada na moral.

Contra a sociedade de massas

A maioria dos anarquistas e “revolucionários” gastam uma parte significante de seu tempo desenvolvendo esquemas e mecanismos para a produção, distribuição, julgamento e a comunicação entre um grande número de pessoas; em outras palavras, o funcionamento de uma sociedade complexa. Mas nem todos anarquistas aceitam a premissa da coordenação e interdependência social, política e econômica global (ou mesmo regional), ou a organização necessária para sua administração. Nós rejeitamos a sociedade de massa por razões práticas e filosóficas. Primeiramente, rejeitamos a representação necessária para o funcionamento de situações fora do domínio da experiência direta (modos de existência completamente descentralizados). Nós não queremos controlar a sociedade ou organizar uma sociedade diferente, nós queremos uma estrutura completamente diferente. Queremos um mundo onde cada grupo seja autônomo e decida com seus próprios meios como viver, com todas as interações baseadas em afinidades, livres e abertas, e não coercitivas. Queremos uma vida na qual de fato vivemos, não uma que sobrevivemos. A brutalidade da sociedade de massas colide não apenas com a autonomia e individualidade, mas também com a Terra. Simplesmente não é sustentável (em termos de recursos, extração, transporte, e sistemas de comunicação necessários para qualquer sistema econômico global) continuar, ou prover planos alternativos para a sociedade de massas. Novamente, a descentralização radical parece ser a chave para a autonomia, promovendo métodos de subsistência sustentáveis e não hierárquicos.

Liberação vs. organização

Somos seres empenhados para um rompimento profundo e total com a ordem civilizadora, anarquistas desejando liberdade irrestrita. Nós lutamos por liberação, por uma relação descentralizada e sem mediações com o nosso meio e com aqueles que amamos e com quem partilhamos afinidades. Os modelos organizacionais nos oferecem apenas mais da mesma burocracia, controle e alienação que recebemos da organização vigente (civilização). Enquanto talvez ocorra uma boa intenção ocasional, o modelo organizacional vem de uma mentalidade inerentemente desconfiada e paternalista, o que parece contraditório com a anarquia. As verdadeiras relações de afinidade surgem de uma profunda compreensão entre as pessoas, através de relações íntimas baseadas nas necessidades da vida diária, e não relacionamentos baseados em organizações, ideologias ou idéias abstratas. Tipicamente, o modelo organizacional reprime as necessidades e desejos individuais para “o bem do coletivo” padronizando tanto a resistência quanto o ponto de vista. Dos partidos, à plataformas, à federações, parece que à medida que a escala dos projetos aumenta, o significado e a relevância que têm pelo indivíduo e sua vida diminui. As organizações são meios para estabilizar a criatividade, o controle de dissidência e a redução de “tangentes contra-revolucionárias” (como os
quadros de elites ou lideranças determinam). As organizações tipicamente se apóiam no quantitativo, ao invés do qualitativo, e oferecem pouco espaço para a ação ou pensamento independente. Informalmente, as associações baseadas em afinidades tendem a minimizar a alienação das decisões e processos, e reduz a mediação entre nossos desejos e nossas ações. Relacionamentos entre grupos de afinidade são mais orgânicos e temporais, ao invés de fixos e rígidos.

Revolução vs. reforma

Como anarquistas, somos fundamentalmente contra governos, da mesma forma, contra qualquer espécie de colaboração ou mediação com o estado (ou qualquer instituição de hierarquia e controle). Esta posição determina uma certa continuidade ou direcionamento de estratégia, que historicamente conhecemos como revolução. Este termo, quando mal entendido, diluído e agregado por várias ideologias e agendas, ainda tem significado para os anarquistas e para as atividades práticas não-ideológicas. Por revolução, entendemos como a luta constante para mudar a paisagem social e política de um modo fundamental; para os anarquistas significa seu completo desmantelamento. A palavra “revolução” é dependente da posição da qual é direcionada, bem como a atividade “revolucionária”. Novamente, para os anarquistas, isso é atividade que é direcionada para a completa dissolução do poder. A reforma, por outro lado, permite qualquer atividade ou estratégia direcionada ao ajustamento, a alteração, ou seletividade, mantendo os elementos do atual sistema, tipicamente usando os métodos e aparatos dele. As metas e métodos da revolução não podem ser ditadas nem realizadas nos contextos do sistema. Para os anarquistas, a revolução e a reforma invocam métodos e direções incompatíveis, e apesar de certas aproximações anarco- liberais, não existe continuidade. Para os anarquistas anti-civilização, as questões de atividade revolucionária desafiam e trabalham para desmantelar todo o cenário ou paradigma da civilização. A Revolução é também não um evento singular ou remoto que construímos ou preparamos para as pessoas, pelo contrário, é um estilo de vida ou prática de abordar situações.

Resistindo à mega-máquina

Os Anarquistas em geral, e em particular anarquistas-verdes, adotam a ação direta em vez de formas mediadas ou simbólicas de resistência. Vários métodos e abordagens, incluindo subversão cultural, sabotagem, insurreição, “violência” política, (embora não sejam limitados somente a esses métodos) têm sido e permanecem como parte do arsenal de ataque anarquista. Uma única tática não pode ser efetiva em alterar significantemente a ordem ou sua trajetória. Mas estes métodos, combinados com transparência e crítica social, são importantes. A subversão do sistema pode ocorrer do sutil ao dramático e pode ser um importante elemento de resistência física. A sabotagem sempre tem sido uma parte vital das atividades anarquistas, tanto na forma de vandalismo espontâneo (público ou noturno), ou através de uma coordenação ilegal e secreta de células autônomas. Recentemente grupos como a Frente de Libertação da Terra (ELF, na sigla em inglês) um grupo ambientalista radical mantido por células autônomas, tendo alvo aqueles que lucram com a destruição da Terra, têm causado milhões de dólares em danos a lojas e escritórios corporativos, bancos, madeireiras, laboratórios de engenharia genética, veículos e casas luxuosas. Estas ações, que frequentemente são incêndios, têm inspirado muitos à ação, e são meios efetivos de não só trazer atenção à degradação ambiental, mas também como detentores de específicos destruidores da Terra. A atividade insurrecionária, ou a proliferação de momentos insurrecionais que podem causar a ruptura da paz social da qual a raiva espontânea das pessoas pode ser liberada e possivelmente propagada em condições revolucionárias, também têm aumentado. A revolta de Seattle em 1999, Praga em 2000 e Genova em 2001, foram todas (de diferentes maneiras) faíscas de atividades insurrecionais, que, embora limitados em alcance, podem ser vistos como tentativa para mover em direções insurrecionárias e fazer um rompimento qualitativo com o reformismo e todo o sistema escravista. A violência política, incluindo o ataque a indivíduos responsáveis por atividades específicas ou pelas decisões que levam a opressão, também tem sido um foco para os anarquistas historicamente. Enfim, considerando a imensa realidade e toda extensão penetrável do sistema (socialmente, politicamente, tecnologicamente), ataques a redes tecnológicas e na infra-estrutura da mega-máquina são de interesse para anarquistas anti-civilização. Indiferente da aproximação ou intensidade, as ações militantes unidas com uma análise profunda da civilização estão crescendo.

A necessidade de ser crítico

À medida que a marcha da aniquilação global avança, a sociedade se torna mais doente, perdemos o controle de nossas vidas e falhamos em criar uma resistência significativa contra a cultura-da-morte. É vital para nós, sermos extremamente críticos com os movimentos “revolucionários” do passado, com esforços atuais e com nossos próprios projetos, não podemos repetir perpetuamente os erros do passado ou sermos cegos para nossas próprias deficiências. O movimento ambientalista radical está repleto de campanhas com um só foco e gestos simbólicos e a cena anarquista está infestada por tendências esquerdistas e liberais. Ambos continuam insistindo
em gestos ativistas sem significado, raramente questionando sua (in)eficiência. Frequentemente a culpa e o auto-sacrifício – ao invés de sua liberação e liberdade – guiam esses benevolentes reformadores sociais irrealistas, enquanto eles continuam por um caminho que foi esboçado por falhas diante deles. A Esquerda é uma ferida inflamada na bunda da sociedade, os ambientalistas não têm obtido sucesso na preservação de nem mesmo frações de áreas selvagens, e os anarquistas raramente possuem algo provocativo para dizer, deixemo-os em paz. Enquanto alguns podem discutir contra o criticismo porque ele é “analítico”, qualquer verdadeira perspectiva radical veria a necessidade da análise crítica, em mudar nossas vidas e o mundo que habitamos. Aqueles que desejam acalmar um debate até o “depois da revolução”, contendo toda a discussão em debates vagos e insignificantes, e reprimir a crítica das estratégias, táticas, ou idéias, não estão indo a lugar algum, e só vão nos atrasar. Um ponto essencial de qualquer perspectiva anarquista radical deve ser colocar tudo em questão, obviamente incluindo suas próprias idéias, projetos e ações.

Influências e solidariedade

A perspectiva anarquista-verde é diversa e aberta, contudo, contém alguns elementos contínuos e primários. A anarquia-verde tem sido influenciada por anarquistas, primitivistas, luditas, insurrecionalistas, situacionistas, niilistas, ecologistas profundos, biorregionalistas, ecofeministas, várias culturas indígenas, lutas anti-colonialismo, os “ferais”, os selvagens e a Terra. Os anarquistas, obviamente, contribuem para o impulso anti-autoritário, que desafia todo o poder num nível fundamental, empenhados por relações verdadeiramente igualitárias e promovendo comunidades de apoio mútuo. Os anarquistas-verdes, entretanto, ampliam as idéias de não- dominação para todas as formas de vida, não apenas humanos, indo assim além das análises anarquistas tradicionais. Dos primitivistas, os anarquistas-verdes são instruídos com um olhar crítico e provocativo das origens da civilização, para que entendam que confusão é essa e como chegamos a ela, para ajudar a apontar uma mudança de direção. Inspirados nos Luditas, os anarquistas-verdes reacendem uma orientação de ação direta anti-tecnológica-industrial. Os insurrecionalistas introduzem uma perspectiva onde esperam não uma crítica positiva e verdadeira, mas identifica espontaneamente as instituições da civilização que atam nossas liberdades e desejos. Os anarquistas anti-civilização devem muito aos Situacionistas, e suas críticas da alienante sociedade da mercadoria, a qual podemos romper nos conectando de forma direta com nossos sonhos e desejos não-mediados.
A recusa niilista em aceitar qualquer realidade demonstra o quão profundo é o mal dessa sociedade e oferece aos anarquistas verdes uma estratégia que não necessita oferecer visões da sociedade, mas ao invés disso, focalizar em sua destruição. A Ecologia Profunda, apesar de sua tendência misantrópica, instrui a perspectiva anarquista- verde com um entendimento de que o bem-estar e a prosperidade de toda a vida estão ligados ao conhecimento do valor inerente e intrínseco do mundo não-humano independente de valor útil. A apreciação da ecologia profunda pela riqueza e a diversidade da vida contribui para a realização que a atual interferência humana com o mundo não-humano é coercivo e excessivo, com uma condição que se agrava rapidamente. O Biorregionalismo nos conduz a uma perspectiva de viver dentro de nossas próprias biorregiões, e nos tornarmos intimamente conectados com a terra, a água, o clima, as plantas, os animais, e outros espécimes da biorregião. O Ecofeminismo tem contribuído para a compreensão das raízes, dinâmicas, manifestações e realidade do patriarcado, e seus efeitos na terra, nas mulheres, e na humanidade em geral. Recentemente, a separação destrutiva do homem da Terra (civilização) tem provavelmente sido articulado mais claramente e intensamente por ecofeministas. Os anarquistas anti-civilização têm sido profundamente influenciados por várias culturas indígenas e nativas ao longo da história e por aquelas que ainda existem. Enquanto humildemente aprendemos e incorporamos técnicas sustentáveis de sobrevivência e maneiras saudáveis de interagir com a vida, é importante não igualar ou generalizar povos nativos e suas culturas, respeitar e nos esforçar a entender sua diversidade sem agregar identidades e características culturais. Solidariedade, apoio, e tentativas de se conectar com nativos e lutas anti-coloniais, que têm sido a linha de frente da luta contra a civilização, são essenciais enquanto nós nos esforçamos para o desmantelamento da máquina-de-morte. Também é importante entender que nós, de certa forma, descendemos de povos nativos que foram violentamente retirados de suas conexões com a terra, e por isso devemos fazer parte das lutas anti-coloniais. Somos inspirados também pelos ferais, aqueles que escaparam da domesticação e se reintegraram com o selvagem. E, claro, com os seres selvagens que tornam possível este lindo organismo azul e verde chamado Terra. É também importante lembrar que, enquanto muitos anarquistas-verdes extraem influência de fontes similares, anarquia-verde é algo muito pessoal para aqueles se identificam ou se conectam com estas idéias e ações. As perspectivas derivam de nossas próprias experiências de vida na cultura-de-morte (civilização), e os próprios desejos fora do processo de domesticação, são ultimamente os mais vividos e importantes no processo de descivilização.

Retorno ao selvagem e reconexão

Para a maioria dos anarquistas verde/primitivistas/anti-civilização retorno ao selvagem e reconexão com a terra é um projeto de vida. Isto não é limitado à compreensão intelectual ou práticas de habilidades primitivas, mas, em vez disso, é um profundo entendimento das penetráveis maneiras pelas quais somos domesticados, fraturados, e deslocados de nós mesmos, dos outros e do mundo, o enorme e diário desafio de sermos íntegros novamente. Retorno ao selvagem tem um componente físico, o qual envolve habilidades resgatadas e desenvolvimento para uma coexistência sustentável, incluindo como obter alimento, abrigo, e nos curar com as plantas, e materiais que existem naturalmente em nossas biorregiões. O retorno ao selvagem também inclui o desmantelamento das manifestações físicas, dos aparatos, e da infra-estrutura da civilização. O retorno ao selvagem tem um componente emocional que envolve nos curar e curar os outros das profundas feridas de 10.000 anos, aprendermos a viver juntos em comunidades não-hierárquicas e não-opressivas, e desconstruir a mentalidade domesticada do atual modelo social. Retorno ao natural envolve priorizar as vontades e experiência direta sobre a mediação e alienação, repensando toda dinâmica e o aspecto da nossa realidade, conectando com nossa fúria feral para defender nossas vidas e lutar por uma existência livre, desenvolvendo mais confiança em nossa intuição, estando mais conectados com nossos instintos, recuperando o balanço que foi virtualmente destruído depois de milhares de anos de controle patriarcal e domesticação. O retorno ao natural é o processo de se tornar “des-civilizado”.

Pela destruição da civilização!
Pela reconexão com a vida!

Traduzido pelo Coletivo Erva Daninha
Contato: ervadaninha@riseup.net

Austin Osman Spare e os Sigilos

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“Os Sigilos são a arte de acreditar, minha invenção
para tornar orgânica a crença, logo, crença verdadeira”
(‘O Livro do Prazer’, A. O. Spare)

Os Sigilos e o Alfabeto do Desejo são utilizados especificamente para propiciar o acontecimento de duas coisas:
Comunhão efetiva com os elementares existentes nos níveis subconscientes;
A colocação do desejo em tais níveis sem que a mente consciente esteja alerta desta transação, pois “o desejo consciente não é atrativo”.
“Minha fórmula e Sigilos para a atividade subconsciente são os meios de inspiração, de capacitação e de genialidade, além de serem os meios para acelerar a evolução. São uma economia de energia e um método de aprendizado através do prazer. Pelos Sigilos e pela aquisição da vacuidade, qualquer encarnação ou experiência passada pode ser trazida à consciência.”

Utiliza-se o alfabeto comum para a construção de sigilos. Spare nos dá como exemplo o desejo de uma força super-humana que ele formula da seguinte maneira: “eu desejo a força de meus tigres”. De modo a sigilizar este desejo, coloque num pedaço de papel todas as letras que compõem a sentença, omitindo as repetições de letras. A seqüência resultante de letras é “EUDSJOA FRÇMTIG” que devem ser combinadas para formar um glifo único. O desejo, assim sigilizado, deve então ser esquecido; isto equivale a dizer que a mente deve desistir de pensar sobre ele em qualquer outro momento além do tempo do ritual mágico, pois “a crença se torna verdadeira e vital por sua retenção na consciência através da forma do sigilo e não pela retenção da fé. A crença se exaure pela não-resistência, isto é, pela consciência. Creia não acreditar e então você obterá a existência do seu desejo.”

Através da virtude do Sigilo você será capaz de enviar o seu desejo ao subconsciente (que contém toda a força); isto acontecendo, a realização do desejo ocorrerá pela manifestação do conhecimento ou do poder necessários.”

“Todo desejo, quer de Prazer, Conhecimento ou Poder, que não consegue encontrar sua expressão natural, pode realizar-se através de Sigilos e sua fórmula no subconsciente. Os Sigilos são meios de se dirigir e unir as crenças parcialmente livres a um desejo orgânico, que é a sua carruagem até que sua finalidade seja atingida no Eu subconsciente, bem como são também os meios de reencarnação no Ego. Todo pensamento pode ser expressado através de uma forma numa equivalência verdadeira. Os Sigilos são monogramas do pensamento para dirigir a energia relativa aos Karmas; um método matemático de simbolizar o desejo, dando-lhe uma forma que tem a virtude de impedir qualquer pensamento ou associação sobre este desejo particular (no momento mágico), escapando da percepção do Ego, de modo que este não retenha ou se apegue a este desejo para uso de suas próprias imagens, lembranças e preocupações transitórias, permitindo seu livre acesso ao subconsciente.”

A energização deste Sigilo deve acontecer num momento especial, conforme pode ser visto na fórmula de Spare. Ele a descreve em seu “Grimório”: “…deve-se usar uma urna de formato e dimensões adequadas para abrigar o ‘lingam’ utilizado, de modo que haja vácuo suficiente. No momento do orgasmo, o desejo deve ser formulado imperativamente. Após a ejaculação, sele o vaso com o seu sigilo contendo a fórmula secreta do seu desejo. Enterre-o à meia-noite com a lua no quarto-crescente ou quarto-minguante. Quando chegar a Lua Nova, desenterre o vaso, derrame seu conteúdo em libação sobre a terra com o encantamento apropriado e, então, reenterre-o (o encantamento adequado consiste numa nova ejaculação sobre o conteúdo da urna). Esta é a fórmula mais formidável já praticada, pois nunca falha, embora seja perigosa…Portanto, o que não está aqui descrito deve ser imaginado. Desta fórmula é que se originou a lenda dos “gênios do vaso de latão” associada a Salomão!”

Não é necessário acrescentar que o poder não está verdadeiramente no sigilo em si, que é simplesmente o veículo do desejo, mas na intenção com que ele é despachado para o vazio no momento da exaustão. Qualquer glifo, pessoal ou tradicional, pode ser utilizado como sigilo. Se for pessoal, ele deve ser o veículo específico do desejo e desenhado com esta única intenção; se tradicional, ele deve ter recebido uma nova direção capaz de consagrá-lo para seu objetivo secreto.

“Não há nada mais simples que falar com o seu Ser interior, embora seja ao mesmo tempo muito complexo. A primeira condição é Segredo, Silêncio e Solidão. A seguir, um meio de comunicação. Eu criei meu próprio Alfabeto e Linguagem baseados na onomatopeia primal da língua que é agora uma qualidade subconsciente e que se expressa apenas através de grande emoção… De fato, os elos ativos entre todas as imagens de pensamento são interiormente audíveis. A Alma responde apenas a esta linguagem básica. Finalmente, deve ser atingida uma calma de corpo e de consciência: a mente deve estar limpa de todos os conceitos não incluídos no desejo em si.”

O Alfabeto do Desejo consiste nos elementos de uma linguagem sutil que não pode ser ensinada nem aprendida, pois se trata duma linguagem de outro plano: ela é uma glifagem fluente do desejo num nível de intensa emoção sepultada profundamente nos planos subconscientes da psique.

Os gestos, atitudes ou mudras, a secreta linguagem de sinais do desejo, não são tradutíveis em termos intelectuais ou do pensamento discursivo. Eles só podem ser apreendidos pela compreensão da arte de Spare que é, de fato, a arte de Zos, “o corpo considerado como um todo”.

Seria incorreto dizer que este alfabeto faz algum sentido na prática, pois ele não tem qualquer significado no plano lógico. O importante é que seu usuário crie dentro de si um novo sentido estético, de modo a ser guiado num labirinto onde ele penetrará nos mistérios dos ‘alinhamentos sagrados’. Isto proporcionar-lhe-á uma assimilação-relâmpago de sujeito e objeto num estado invisível e desconhecido de ‘nem isto, nem aquilo’, chamado simplesmente de ‘auto-amor’ (Self-love) apenas pela ausência de um termo plenamente capaz de explicá-lo.

O Alfabeto do Desejo pode, portanto, ser descrito como uma guirlanda de letras místicas ao redor da garganta da Deusa. “Asseguro que este Auto-amor é um dos rituais mais secretos escondido por ideogramas blasfemos; e, quem o invocar, pronunciando a palavra corajosamente, verá toda a criação das mulheres correr em sua direção”. Em outras palavras, ele conhecerá os alinhamentos sagrados e, tendo absorvido seus corpos femininos, que estão sempre se projetando, “ele conseguirá atingir a verdadeira extensão de seu corpo”, iniciando-se na Nova Sexualidade.

É por este motivo que o devoto da Deusa no Culto de Zos Kia utiliza o Alfabeto Sagrado e, com as palavras de poder geradas por suas letras, ele evoca o Id primal.

Esta foi a Deusa celebrada por Spare em sua arte, e ele “caminhou com Ela pelo caminho correto”.

Texto recebido pela Internet, sem referência de autor.
Se você puder colaborar para identificar o autor
e/ou o tradutor do artigo, entre em contato conosco.

Editado por AShTarot Cognatus

Fonte: Pacto NOX

Fascismo – Sem Fronteiras e Vermelho

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por Aleksandr Dugin

Existem, no Século XX, apenas três ideologias que conseguiram demonstrar que os seus princípios são realistas em termos de implementação político-administrativa – Elas são o liberalismo, o comunismo e o fascismo. Por mais que se queira – é impossível nomear outro modelo de sociedade que não esteja nos moldes dessas ideologias e que, ao mesmo tempo, existiu na realidade. Existem países liberais, existem países comunistas, e existem países fascistas (nacionalistas). Outros não existem. São impossíveis. Na Rússia, passamos por dois estágios ideológicos – o comunista e o liberal. Falta o fascismo.

1. Contra o capitalismo nacional

Uma das versões do fascismo, que aparentemente a sociedade Russa de hoje está pronta (ou quase pronta) para abraçar, é o capitalismo nacional. É quase indubitável que o capitalismo nacional ou “fascismo de direita” constitua uma iniciativa ideológica daquela parte da elite da sociedade que está seriamente preocupada com o problema do poder e sente agudamente o poder do tempo [velenie vremeni]. Ainda assim, a variação “nacional-capitalista”, “direitista” do fascismo, de modo algum, esgota a natureza dessa ideologia. Além disso, a união da “burguesia nacional” com os “intelectuais” em que, de acordo com alguns analistas, se baseará o fascismo russo que está por vir, constitui um evidente exemplo do que, na verdade, é inteiramente estrangeiro ao fascismo como visão-de-mundo, como doutrina e como estilo. “A dominação do capital nacional” – essa é uma definição Marxista do fenômeno do fascismo. Absolutamente não leva em conta a auto-reflexão filosófica da ideologia fascista e ignora conscientemente o núcleo-pathos fundamental do fascismo.

O Fascismo – isso é, o nacionalismo, mas não qualquer nacionalismo, mas [uma forma de nacionalismo] revolucionário, rebelde, romântico, idealista, atraente ao grande mito da ideia transcendental, tentando colocar em prática o Sonho Impossível, dar a luz a uma sociedade do herói e do supra-humano, mudar e transformar [preobrazovat` i preobrazit`] o mundo. No aspecto econômico, o fascismo é mais caracterizado pelos métodos socialistas ou moderadamente socialistas, que subordinam os interesses econômicos pessoais e individuais aos princípios do bem-estar nacional, da justiça e da fraternidade. E finalmente, a visão fascista da cultura corresponde a uma rejeição radical da mentalidade humanista, “excessivamente humana”, ou seja, o que representa a essência [do pensamento] dos “intelectuais”. O fascista odeia o intelectual como um tipo. Ele [o fascismo], vê nele [intelectual] um burguês mascarado, um filisteu pretensioso, um covarde tagarela e irresponsável. O fascista ama o brutal [zverskoe], o supra-humano e o angelical ao mesmo tempo. Ele ama o frio e a tragédia, ele não gosta do calor e do conforto. Em outras palavras, o fascismo despreza tudo o que faz parte da essência do “nacional capitalismo”. Ele luta pelo “domínio do idealismo nacional” (e não pelo capitalismo nacional) e contra a burguesia e os intelectuais (e não por eles ou com eles). O Pathos fascista é corretamente definido pela famosa frase de Mussolini: “Erga-se Itália fascista e proletária!”. Fascista e proletária – essa é a orientação do fascismo. Ela é uma ideologia do trabalho e heroica, militante e criativa, idealista e futurista, que não tem nada em comum com assegurar mais conforto governamental aos comerciantes [torgasham] (mesmo que mil vezes nacionais) ou sinecuras para os socialmente parasitários intelectuais. As figuras centrais do Estado fascista e do mito fascista são o camponês, o trabalhador e o soldado. No topo, como o símbolo supremo da trágica luta com o destino, entropia cósmica, está o líder-divino, Duce [duche], Führer [fyurer], o homem-superior que realiza na sua personalidade supra-individual, a extraordinária tensão da vontade nacional para a façanha. Sem dúvidas, em algum lugar na periferia, há também lugar para o mercador-cidadão [grazhdanin-lavochnik] honesto e para o professor universitário. Eles também usam distintivos do partido e participam de reuniões cerimoniais. Mas, na realidade fascista, as suas figuras estão desaparecendo, se perdendo e se colocando em segundo plano [otstupayut na zadnii plan].

Não é por causa deles e nem por eles que a revolução nacional é feita.

Na história, o Fascismo limpo, ideal, não vivenciou um encarnação direta. Na prática, os problemas urgentes da tomada do poder e do estabelecimento da ordem econômica, forçaram os líderes fascistas – incluindo Mussolini, Hitler, Franco, assim como Salazar – a forjar alianças com conservadores, nacional-capitalistas, grandes proprietários e chefes de corporações. Assim, estes compromissos sempre acabaram deploráveis para os regimes fascistas. O anti-comunismo fanático de Hitler, instigado pelos capitalistas alemães, custou a derrota na guerra para a URSS, enquanto que Mussolini – confiando no rei (articulador dos interesses das grandes empresas) – ganhou em troca os renegados Badoglio e Ciano, que colocaram o Duce na prisão e correram para os braços dos americanos.

Franco foi o que se manteve por mais tempo, ainda assim devido às concessões [que ele fez] aos liberal-capitalistas Inglaterra e Estados Unidos e por causa da sua recusa em ajudar os regimes ideologicamente parecidos do Eixo. Ademais, Franco não era um verdadeiro fascista. O nacional-capitalismo é o vírus interior do fascismo, seu inimigo e assegurador [zalog] da sua degeneração e destruição. O nacional-capitalismo não é, de maneira alguma, um característica essencial do fascismo e é o contrário, um elemento acidental e contraditório dentro da sua estrutura interna.

Portanto, no nosso caso, no caso do crescente nacional-capitalismo russo, não se pode falar em fascismo, mas uma tentativa de preliminarmente deturpar o que não pode ser contornado. Tal pseudo-fascismo pode ser chamado de “preventivo” ou [de] “precaução”. Ele se precipita em se fazer conhecido antes que um fascismo autêntico, real, radicalmente revolucionário e consistente, um fascismo fascista, esteja totalmente nascido e [que se torne] forte na Rússia. Nacional-capitalistas – eles são os antigos líderes de partido [comunista] que eram usados para mandar [vlastvovat`] e humilhar o povo e que subsequentemente, por conformismo, se tornaram “democratas liberais” e, agora que este estágio acabou, estão, igualmente zelosos, se aventurando em esconder-se sob vestes nacionais.

Transformando a democracia numa farsa, aparentemente, os partidocratas, junto com os intelectuais controlados, estão decididos a envenenar o nacionalismo que avança na sociedade.

A natureza do fascismo é uma nova hierarquia, uma nova aristocracia. A novidade é que a hierarquia se baseia em princípios claros, naturais e orgânicos – dignidade, honra, coragem e heroísmo. A hierarquia dilapidada que esta tentando se arrastar para a era do nacionalismo é, como antes, baseada nas habilidades conformistas: “flexibilidade”, “cautela”, “um gosto por intrigas”, “bajulação”, etc. O conflito óbvio entre dois estilos, dois tipos humanos, dois sistemas normativos é inevitável.

2. Socialismo russo

É absolutamente injustificado chamar o fascismo de ideologia da “extrema direita”. Este fenômeno é muito mais precisamente caracterizado pela formula paradoxal da “Revolução Conservadora”. É uma combinação da um orientação cultura-política “direitista” – tradicionalismo, fidelidade ao solo, raízes, ética nacional – com um programa econômico “esquerdista” – justiça social, limitação das forças de mercado, libertação de “escravidão dos juros [protsentnogo]”, proibição da especulação no mercado de ações, monopólios e trustes, e primazia do trabalho honesto. Em analogia ao Nacional-Socialismo, que foi por vezes simplesmente chamado de “socialismo alemão”, pode-se falar do fascismo russo como “socialismo russo”. A especificação étnica do termo “socialismo” tem, nesse contexto, um significado especial. O que se entende é a formulação de uma doutrina sócio-econômica desde o começo, não com base em dogmas abstratos e leis racionalistas, mas com base nos princípios espirituais-éticos e culturais, que têm formado organicamente a nação como tal. Socialismo russo – isso não quer dizer Russos para o socialismo, mas socialismo para os Russos. Diferente dos rígidos dogmas Marxistas-Leninistas, o Nacional Socialismo Russo prossegue de um entendimento da justiça social que é caracterizada exatamente pelo nossa nação, pela nossa tradição histórica, pelas nossas éticas econômicas.

Tal socialismo será mais rural do que proletário, mais comunal e cooperativo do que administrativo [gosudarstvennyi], mais regionalista do que centralista – todas essas são necessidades da especifidade nacional russa, que achará sua expressão na doutrina e não apenas na prática.

3. Novo povo

Tal socialismo russo deve ser construído por um novo povo, um novo tipo de povo, uma nova classe. Uma classe de heróis e revolucionários. Os restos da nomenclatura do partido e da sua ordem moribunda devem ser vítimas da revolução socialista. A revolução nacional russa. Os russos estão suspirando por novidade, por modernidade [sovremennosti], pelo romantismo não fingido, por uma participação viva em alguma grande causa. Tudo o que é oferecido a eles hoje ou é arcaico (os patriotas nacionais) ou tedioso e cínico (os liberais). A dança e o ataque, o hábito e a agressão, excessividade e disciplina, vontade e gesto, fanatismo e ironia irão arder nos nacional revolucionários – jovens, maliciosos [zlykh], agradáveis, destemidos, apaixonados e sem conhecer limites. Eles construirão e destruirão, governarão e cumprirão ordens, conduzirão expurgos dos inimigos da nação e carinhosamente tomarão conta dos idosos e das crianças russas. Furiosamente e alegremente se aproximarão da cidadela do sistema podre e moribundo. Sim, eles têm sede profunda [krovno] de poder. Eles sabem como usa-la. Eles respirarão Vida para a sociedade, eles impulsionarão [vvergnut] o povo para o doce processo da criação da História. Um novo povo, finalmente inteligente e guerreiro. Do jeito que é necessário. Que tomam o mundo exterior como um ataque (NdT: nas palavras de Evgenii Golovin [um místico russo e professor de Dugin])

Imediatamente antes de sua morte, o escritor fascista francês Robert Brasillach proferiu uma estranha profecia: “Eu vejo como no leste, na Rússia, o fascismo está crescendo – um fascismo sem fronteiras e vermelho.”

Nota: Não um desbotado nacional-capitalismo, marrom-rosado, mas o amanhecer cegante de um nova Revolução Russa, Fascismo – sem fronteiras como as nossas terras e vermelho como o nosso sangue

Re-editado por AShTarot Cognatus

Fonte: Coletivo Nacional-Bolchevique

O Caminho Septenário: Treinamento e Graus

AZOTH

O Caminho Septenário: Treinamento e Graus
ONA, 1989.

De várias formas, o Caminho Septenário pode ser considerado, como um processo, pelo indivíduo, de descoberta e experiência. O objetivo deste processo é a produção de indivíduos especializados e experientes nas artes mágicas, que tem desenvolvido suas habilidades latentes e ocultas e que possuem os primórdios da sabedoria.

Esse processo pode resultar, às vezes por acidente durante longos períodos de tempo (por exemplo, três décadas ou mais), mas geralmente é realizado como resultado de uma decisão consciente de um indivíduo de buscar grupos/Ordens/Adeptos esotéricos e/ou mágicos. Neste caso posterior – e desde que a orientação recebida seja boa – o objetivo pode ser alcançado em um tempo muito mais curto.

A primeira parte do processo é, de muitas maneiras, a mais fácil: a de buscar alguma forma de Iniciação (q.v. O MS da Ordem ‘Um guia para novatos a iniciação’). Antes e depois da Iniciação, o noviço é obrigado a realizar várias tarefas pelo Mestre ou Senhora que concordou em guiar o indivíduo ao longo do Caminho Septenário. As tarefas de pré-Iniciação são a performance pelo indivíduo de um simples ritual hermético (geralmente na noite da lua cheia), a construção da versão simplificada do Jogo Estelar e a conclusão bem sucedida dos vários testes visando provar o intenção séria da intenção e compromisso do candidato. O importante sobre esses testes de intenção é que o candidato não tenha conhecimento deles – por exemplo, o candidato é solicitado a estar presente em um determinado momento e lugar e, em vez de se encontrar lá o Mestre ou Senhora esperado, encontra uma pessoa de aparência estranha que propõe várias visões que o indivíduo em questão pode achar não só incomum, mas desagradável. Tais testes e encontros não são jogos, mas apenas dispositivos que permitem a preparação para Iniciação. Deve ser entendido que não é a ordem que testa o candidato – e sim os próprios candidatos que testam a si mesmos. A iniciação é o início da quebra da ilusão de papéis, e para ser bem-sucedida, essa quebra deve ser feita pelo indivíduo, internamente.

Uma vez que esta quebra começa, então a Iniciação já está em andamento, e nenhum “Rito de Iniciação”, no entanto, complexo ou bem intencionado é um substituto dessa mudança no indivíduo. Tal rito, como um ritual cerimonial, é apenas a representação deste processo de forma dramática e, em muitos casos, não é necessário se alguma outra forma de Iniciação for mais adequada ao candidato.

Além desta quebra da auto ilusão, a Iniciação é um despertar das habilidades ocultas – isto é, a experiência do candidato da realidade das forças mágicas. Esta experiência pode ser provocada de várias maneiras – primeiro, por meio de um poderoso ritual de Iniciação que produz forças mágicas através da invocação; segundo, através do candidato experimentando o carisma de um Mestre ou Senhora; terceiro, como consequência do indivíduo submetido a uma experiência particular onde as forças mágicas estão presentes. Um exemplo deste terceiro tipo é quando um candidato, esperando talvez (como resultado de sua imaginação) um ritual cerimonial de Iniciação, é levado a um ponto isolado onde as energias mágicas estão presentes naturalmente (como, por exemplo, na maioria dos círculos de pedra) ou foi criado de antemão por um Adepto em prontidão para o candidato. O candidato é então deixado sozinho. O que o candidato então experimenta (às vezes por muitas horas) é uma Iniciação – embora isso seja raramente compreendido pelo candidato no momento porque falta a forma externa. Em muitos aspectos, este terceiro tipo é a mais valiosa de todas as formas de Iniciação, uma vez que não depende da ilusão do cerimonial, ou do dogma normalmente associado a tais formas rituais. A iniciação é completa quando o candidato percebe que iniciou um processo de mudança interior.

A próxima etapa do Caminho Septenário, após a Iniciação, é quando o noviço começa a empreender de maneira sistemática os trabalhos das várias forças mágicas através de formas como Trabalhos dos Caminhos, rituais herméticos e cerimoniais. Tais trabalhos em si levam vários meses e durante este tempo, o noviço receberá várias tarefas – algumas práticas, algumas mágicas – para executar. Essas tarefas podem em si, levar vários meses para serem concluídas. A tarefa mágica mais frequente envolvia o novato assumindo o ‘papel’ de um feiticeiro/feiticeira obscuro, por exemplo, vestindo-se de preto e cultivando uma aparência satânica – e com essa aparência, frequentando várias funções ocultas e geralmente tentando provocar argumento e dissidência. Nisso o noviço é aconselhado a cultivar uma atitude de arrogância e orgulho e deve estar preparado para defender com força seus pontos de vista satânicos. Seguindo isso, espera-se que o noviço se infiltre em outro grupo/ordem mágica com a intenção de participar de um ritual e durante esse ritual, redirecionar o poder mágico (se houver) ou invocar pelo seu próprio esforço uma poderosa força de sua própria escolhendo interromper ou alterar o ritual original. Em alguns casos, o noviço pode organizar seu próprio grupo (recrutando pessoas para isso) apenas para este propósito.

Esta tarefa mágica desenvolve não só o uso de forças mágicas de forma interessante, mas também fornece ao noviço um objetivo cuja realização é revigorante. Mas também fornece ao noviço desenvolvimento de várias habilidades relativas à manipulação de outros indivíduos principalmente através do desenvolvimento deliberado de uma personalidade ou papel “carismático”. É a tarefa fundamental do noviço aprender destas experiências – isto é, não permitir que o papel se torne dominante.

Isso é alcançado pelo noviço lembrando que ele está envolvido em uma missão Septenária e aceitando o conselho dado pelo Mestre ou Senhora que atribuiu a tarefa. Ambas as coisas que alguns noviços acham difíceis de fazer. O comportamento do noviço durante esta tarefa é regido por diretrizes específicas: a não observância das orientações por meios individuais significa o fim do seu noviciado, no que diz respeito à Ordem.

As tarefas práticas associadas à esta etapa geralmente envolvem o noviço desenvolvendo certas habilidades físicas adequadas ao seu caráter. Tais objetivos físicos (por exemplo, pedalar 100 milhas em menos de 5 horas ou correr 20 milhas em 2 horas e 30 minutos – os indivíduos aptos receberão um objetivo mais exigente) são um equilíbrio necessário para as tarefas mágicas, bem como permite que essas tarefas sejam alcançadas de forma mais revigorante.

Esta etapa geralmente leva de seis meses a dois anos e é concluída quando o noviço descobre mudanças de perspectiva decorrentes da auto-compreensão trazida seguindo as metas e tarefas. Essa mudança deve surgir naturalmente e é tornada consciente para o noviço no final do estágio através do ritual do grau de Adepto Externo. Este ritual é um prelúdio para os objetivos e tarefas da próxima etapa e significa o início do estágio de Adepto.

O Ritual de Grau implica no envolvimento do indivíduo construindo um Jogo Estelar septenário e a realização pelo indivíduo de um certo ritual em uma noite da lua nova. Este ritual envolve a invocação de uma certa força, de aspecto feminino.

O Adepto Externo pode optar por continuar com o grupo ou templo iniciado no estágio anterior (ou criar um se não foi feito antes) com a finalidade de realizar rituais cerimoniais e herméticos do tipo, associado com, por exemplo, ao “Livro de Wyrd”, bem como para o desempenho do rito ctônico dos Nove Ângulos, se desejado. Alternativamente, o indivíduo pode optar por se concentrar no trabalho mágico com o Jogo Estelar – e para isso (como a tarefa acima) é necessário uma companhia. É uma tarefa do Adepto Externo encontrar tal companhia, bem como ensinar a todos o que eles mesmos tem aprendido durante os estágios anteriores – guiando-os como eles próprios tem sido guiados. Isto em si geralmente leva de um a dois anos, e por isso, a maioria dos Adeptos Externos preferem, durante esse tempo, organizar um grupo/templo mágico, pois fornece uma estrutura e um foco.

Durante este período, o Adepto Externo experimentará muitas coisas, particularmente de um tipo mágico, se os rituais forem realizados por um grupo, e o contato com o Mestre ou Senhora será limitado e ocorrerá na maior parte se o Adepto Externo desejar. É importante durante o longo período associado a este estágio particular, que o indivíduo não se torne presa da ilusão de superioridade de ser um Mestre ou Senhora.

A maioria, obviamente, sucumbe em algum momento a isso como uma consequência das variadas experiências mágicas e contatos com aqueles menos experientes em magia, muitos indivíduos cortam suas ligações com a Ordem como consequência dessa ilusão.

De certa forma, este estágio é o mais difícil, envolvendo o confronto com vários papéis e o que foi chamado de “anima/animus”, esse ultimo ocorre naturalmente através do treinamento de uma companhia. Desde que o indivíduo mantenha durante o estágio sua determinação de seguir até o fim o Caminho Septenário (e aqui o conselho do Mestre/Senhora é muitas vezes crucial em algum momento durante esta etapa), então, com a conclusão do Ritual do quinto estágio, o novo Mestre ou Senhora assume um papel de instrução através de uma Ordem ou base individual, e geralmente aqueles que alcançam esta etapa assumem, em algum momento, sua Ordem, guiando indivíduos ao longo do Caminho Septenário. Eles também podem criar sua própria Ordem ou grupo se desejarem – ou reativar o Templo que eles organizaram durante o seu tempo como um Adepto Externo, uma vez que o ritual de grau de Adepto Interno por sua natureza, significa que o indivíduo deve dissolver esse Templo ou deixá-lo no cuidado de um menos experiente.

Depois de alguns anos instruindo, o Mestre ou a Senhora podem se retirar para buscar o próximo estágio – desde que tenham treinado pelo menos uma pessoa para continuar a tradição do Caminho Septenário.

Assim, verá que o Caminho Septenário não é fácil. É um modo de vida, que qualquer indivíduo pode seguir. Aqueles que apenas seguem seus primeiros estágios ganham algo de benéfico – aqueles que vão além podem alcançar o objetivo que aguarda a todos nós: o próximo estágio da evolução humana.

No passado, em alguma década, a Ordem teve muitas centenas de candidatos que procuravam a Iniciação. Cerca de quatro ou cinco por ano, às vezes menos, podem se tornar Iniciados por sua própria escolha. Destes, talvez dois completem o noviciado e apenas dois ou três de vinte em uma década se tornam Adeptos Internos, os outros se afastando por várias razões. A cada vinte anos, um novo Mestre ou Senhora pode assumir a função. Pode haver um ou dois Magi em um século. Assim tem sido … e assim será provavelmente, infelizmente até que os Novo Aeon comece a surgir no nível prático de três a quatro séculos no futuro.

O Caminho Septenário possui o potencial para criar (dada boa orientação) em dez anos o que levou sete civilizações, cinco Aeons ou quase dez mil anos para alcançar. Todo indivíduo é livre para escolher entre este caminho para o divino e uma continuação do sono que mantém a potencialidade da vida à distância. Toda magia é um vislumbre desse caminho – cabe ao indivíduo caminhar ao longo dele.

1989eh

Tradução: Dravgr Ntrfctr 128yf
Revisão: AShTarot Cognatus

Terror Contra o Demiurgo

por Aleksandr Dugin

(Resumo sobre a relevância do anarquismo hoje)

Anarquismo: Um olhar desde a direita

O anarquismo é considerado como o produto mais à esquerda do pensamento esquerdista. Essa crítica total da esquerda de todas as outras formas de ideologias revolucionárias: dos marxistas aos social-democratas. Os anarquistas fustigavam nos outros esquerdistas a presença de todos os velhos elementos reacionários. Para a anarquia, todas as outras formas não são mais do que referências sutilmente veladas ao antigo e único inimigo – o poder.
O anarquismo busca justificar um sistema de antítese radical de uma sociedade baseada no princípio do poder. Daí vem o nome “an-arquia”, literalmente – “a ausência de poder”. A anarquia aspira ser uma esquerda sem qualquer mistura de “direita”, mas infelizmente não é assim. E aqui no anarquismo nós comumente encontramos os elementos que tradicionalmente pertencem à “direita”. Exemplos notáveis são o “anarquismo de direita” do Evola e o conceito de “anarca” do Jünger.
Exemplos de componentes “direitistas” do anarquismo são numerosos. O mais notável é o misticismo. Bakunin – maçom, místico – era interessado no movimento dos “beguni”. O mesmo se passa com Kelsiev. A grande figura do anarquismo Theodor Reuss – maçom, místico, fundador da “Ordem do Templo do Oriente” (junto com Karl Kellner). Posteriormente Aleister Crowley. Na Rússia – Karelin Solonovich, cujo círculo se reunia ao redor do museu de Kropotkin. A seita anarquista de Alexei Dobrolyubov. Muitos exemplos são dados no livro de Alexander Etkind “Chicote. Seitas, Literatura, Revolução”.
O misticismo dificilmente poderia ser classificado como de “esquerda”, como uma tendência “progressista”. Ele pressupõe a crença em algo além, um certo arcaísmo

Outra coisa: o que é esse arcaísmo? Qual é a estrutura da atitude anárquica em relação ao misticismo?

“Contra os governantes, contra os poderes…”

O misticismo dos anarquistas se apóia em uma fórmula gnóstica especial. A essência dela vem a isso: não há uma única realidade, hierarquicamente organizada, harmônica, virtuosa em si mesma, mas duas (ou mais). A realidade imanente se sustenta na usurpação, na tentativa de expressar o melhor a partir do pior, como único e inconteste.

E assim o poder imanente é o poder que é ontologicamente e inerentemente errado, injusto, maligno. Os primeiros gnósticos se fiavam no dito pelo Apóstolo Paulo – “Pois nós lutamos não contra carne e sangue, mas contra principados, contra potestades, contra os príncipes das trevas desse mundo, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. A versão cristã do anarquismo gnóstico se apóia nessa fundação.

Ademais, porém, o mesmo Apóstolo Paulo diz, “Escravos, obedecei a vossos mestres terrenos com respeito e temor, e com sinceridade de coração, assim como obedeceríeis a Cristo.” A ortodoxia combina os chamados à conformidade social e à inconformidade espiritual. Os círculos gnósticos radicais estendem o clamor por inconformismo ao nível social.

Mas essa revolução contra “esse mundo” em um padrão anarco-gnóstico pleno pressupõe também uma segunda parte afirmativa. Contra esse mundo pelo outro mundo, por um mundo melhor, pelo “nosso” mundo, um novo mundo. E esse mundo alternativo possuía características positivas, construtivas. Esse – um universo de Luz, o mundo do bem e da divindade justa, o mundo do verdadeiro Bem, que foi usurpado por Satã, “o maligno Demiurgo”.

Portanto, estruturalmente e tipologicamente a maior parte do anarquismo revolucionário oculta em si mesmo um grau extremo de conservadorismo, afirmatividade, criatividade, uma ordem transcendental radical. Ele não é niilismo irresponsável. Essa negação daquilo que, segundo o próprio anarquismo gnóstico, é a negação total do Bem.

Império: O Sagrado e o Profano

Traçar as raízes místicas do anarquismo ocidental não representa qualquer dificuldade. Mas como são os “beguni”, os velhos crentes, a serem chamados os anarquistas russos mais consistentes? A quem os pesquisadores erguem a cosmovisão de Bakunin? Àqueles que Kelsiev tentou encorajar para a prática de terror antigovernamental em larga escala?

Os gnósticos formularam suas doutrinas radicais no ambiente pré-imperial onde o Cristianismo ainda não havia se tornado a religião dominante. Sua rejeição desse mundo era apoiada por observações do ambiente pagão da Roma tardia, confirmando sua rejeição radical de tudo “externo”. Isso quer dizer, os gnósticos eram “contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas desse mundo…” também porque eles eram não-cristãos – judeus ou helenos.

Quando o Império se tornou cristão o anarquismo gnóstico se dissipou. O reinício dessa linha se dá no período da Cristandade, quando a sociedade nominalmente cristão começa a ser alienada de sua natureza. E nesse ponto se torna relevante novamente a mesma abordagem dualista em uma contraposição radical e intransigente entre esse mundo e o outro mundo, “as autoridades desse mundo” às autoridades do outro mundo.

Diagnóstico dos Mentores “Beguni”

É durante o período da dessacralização total do catolicismo que surgem as lojas maçônicas. Enquanto a dessacralização da Russia nikoniata, romanovita, pró-ocidental, “administrativa” é tragicamente percebida pelos mais extremos entre os patriotas místicos ortodoxos russos – os velhos crentes.

Os “beguni” seguiram na negação dos “principados e potestades do governo desse mundo” mais do que os outros, assumindo que o Anticristo já havia coroado a si mesmo em face de Pedro I (Pedro o Grande). Foi assim que aconteceu a convergência tipológica dos extremistas sem sacerdotes com a fórmula gnóstica, cujos elementos já são visíveis naqueles ascetas russos que percebiam a queda do Império Bizantino como uma catástrofe apocalíptica absoluta – especialmente com a linha dos “não-possuidores”, e seguidores tardios do ancião radical Kapiton.

Anarquia – Mãe do Bem

O niilismo extremo do impulso anarquista acaba não sendo de forma alguma a última palavra na profanação e negação da Tradição. Ao contrário, ele está baseado em uma discordância total em relação a essa dessacralização, em uma rejeição absoluta dela, do “mundo”, dessa “era”, que é governada por um Demiurgo maligno e seus acólitos, “avliyi El Shaitan”, os “Santos de Satã”.

A própria fórmula famosa da “anarquia mãe da ordem” é uma transferência para a dimensão social da tese da necessidade de uma abolição radical desse mundo do mal para que um mundo do bem possa ser fundado. Já que o mundo do mal é uma “barreira” para sua fundação (“Satã” em hebraico antigo significa “barreira”), então ele deve ser completamente destruído. É importante que os anarquistas compreendam o “novo mundo” não como uma criação, mas como uma descoberta. Eles não querem reformar, reconstruir, renovar a realidade, eles queriam transformar radicalmente a qualidade da realidade. Eles eram nisso conservadores muito bem sucedidos, sendo os destruidores mais consistentes. Mas eles destroem o próprio espírito de destruição, o ídolo da “velha ordem”, a fortaleza do Demiurgo.

Estranha ação de “busca pela alma”

Os anarquistas são considerados sinônimos de terror radical. Mas por trás disso não há tantos significados sociais quanto ontológicos e cosmológicos. O terror não é um meio para os anarquistas de conseguirem reconhecimento político. Ele leva consigo um peso não tanto sócio-político quanto antropológico. Terroristas anarquistas não lançam bombas contra pessoas, não contra membros da classe, não contra figuras socialmente significativas. Eles lançam bombas contra o Anticristo e seus servos, e o ato em si leva consigo sua própria desculpa e justificativa.

O anarco-terrorismo é, eventualmente, uma “ação de salvação da alma”. Ele é dirigido a salvar a “alma do mundo” do abraço tóxico do Usurpador.

Anarquismo de Direita e Rússia

É agora fácil compreender de onde são os “elementos direitistas” dos clássicos do anarquismo, Stirner e Proudhon. Os dois pólos dentro do anarquismo: um – personalista; o outro – coletivista.

Stirner ensina sobre a singularidade e sobre o verdadeiro ego disposto para sair do poder hipnótico desse mundo, incorporado no sistema social, seus símbolos, e da hierarquia de suas dependências. E aqui ele se aproxima ao conceito gnóstico de “atman”, o mais elevado “Eu” espiritual, desenvolvido no hinduísmo e no esoterismo de outras tradições. Daí o interesse de Evola em Stirner, incluindo ele em seu panteão filosófico pessoal. Proudhon é o pólo oposto. Sua “veracidade” não está na “ciência do Eu” (o conceito do “Uno”), mas na idealização de comunidades rurais, a autonomia de grupos orgânicos naturais os quais ao sair do poder alienante do controle estatal (o Demiurgo) estão retornando às raízes da existência comunal, associada com ética tradicional e com a terra.

Esse ideal está próximo ao ideal da igreja cristã primitiva, representando ainda outro fenômeno profundamente arcaico e essencialmente “direitista”.

Bakunin e Kropotkin estão no mesmo nível que Stirner e Proudhon. A Russia tradicionalmente tem assumido pelo menos metade das cadeiras da esquerda, enquanto o resto é composto por todos os outros povos europeus e não-europeus. Há um desequilíbrio claro. E a vitória da extrema-esquerda em outubro aconteceu conosco. É notável que somente em nosso profundamente “reacionário”, “arcaico”, “telúrico”, “conservador” país, com o mesmo tipo de povo. Isso não é acidente. Para nós esse espírito paradoxal, o pulso gnóstico está muito próximo, esse incrível complexo espiritual, religioso e social que está por trás do fenômeno do anarquismo radical místico, essa forma extrema da Revolução Conservadora.

Fonte: Legio Victrix